
Desde que a televisão brasileira submeteu sua programação aos números, não se via uma disputa tão desatinada. Em uma emissora, o “caso Isabella” invade o campo de futebol em pleno jogo São Paulo x Nacional do Uruguai, interrompe a transmissão mais popular do Brasil e deixa de mostrar o gol de Adriano para não perder o furo nem a audiência.
Na concorrente, uma novela de enredo altamente improvável transforma praticamente todo o elenco em seres mutantes, frutos de uma experiência científica. Quanto mais o telespectador vibra, mais loucamente a história se ajusta a ele.
Com mais de 40 anos, a gigante Globo ainda vence com folga nas pesquisas de audiência, embora tenha caído 20% desde 2004 (entre 18h e meia-noite, na média nacional, segundo dados do Ibope).
A Record, ao contrário, cresceu no mesmo período quase 150% na audiência nacional, tomou o segundo lugar do SBT no ano passado e, sob o comando do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, investiu nos últimos três anos R$ 300 milhões em equipamentos, instalações e gente. Propõe-se a ficar grande como a outra.
A Folha esteve por um dia nas megainstalações de ambas, que ficam próximas, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, para observar como é a guerra de audiência por dentro da indústria que a produz.
O centro de produção da Globo chama-se Projac (Projeto Jacarepaguá), tem 1,65 milhão de m2 e 6.000 funcionários. O da Record chama-se RecNov (Record Novelas), tem 200 mil m2 e 2.000 funcionários -e já chegou a ser apelidado pejorativamente de “projeca”.
As visitas diferem já na recepção. A Globo escolhe o que mostrará à reportagem e coloca uma assessora para acompanhar os visitantes.
“Eu não falo pela emissora. Nada do que eu digo pode sair na minha boca, é só para facilitar o seu trabalho”, avisa a moça, ao volante de um dos 121 carrinhos elétricos usados para o transporte nas ruas do Projac.
A assessora explica que os funcionários de infra-estrutura são orientados a não abordar os artistas na praça de alimentação. “Isso é uma indústria, como uma fábrica de chocolates ou automóveis. Eles estão produzindo, não são personagens”, diz ela, a caminho da cidade cenográfica de “Duas Caras”, que reproduz uma favela real. O carrinho cruza com outro, que leva Lima Duarte (o prefeito Viriato de “Desejo Proibido”) paramentado com costume e chapéu. A cena remete a algum parque temático da Disney.
Mais tarde, o diretor de infra-estrutura, Mauro Franco Wanderley, autorizado a conversar, fala com a reportagem em “conference call” (viva voz), monitorado pela assessora.
Ele diz que o rigor no protocolo com os visitantes é uma forma de “preservar a magia” das produções.
A Record ainda não está podendo dispensar publicidade. Então, deixa-se vasculhar despudoradamente, atende a todas as curiosidades da reportagem e se faz representar pelo diretor de teledramaturgia, Hiran Silveira, que pode revelar o nome.
Silveira conduz a reportagem por todos os estúdios da emissora, a partir da sala dele. O que impressiona ali não são tanto as dimensões, que atingem 12,1% da área da Globo, mas a rápida multiplicação das instalações.
“Quando cheguei aqui, no dia 1º de maio de 2005, havia apenas uns poucos empregados do Renato Aragão (antigo proprietário do estúdio, que se chamava RA). Se eu embolasse um papel, tinha de colocá-lo no bolso, porque não havia lata de lixo”, conta o diretor. “Aumentamos nossa capacidade em cinco estúdios de 1.000 m2.”
A conversa de Silveira é, digamos, improvisada, “naturalista”, para usar o jargão televisivo. Ele até tem um vídeo preparado sobre a emissora, com uma música espetaculosa de pano de fundo, mas fica claro que o passeio pelas dependências do RecNov não foi ensaiado nem segue um roteiro.
O grupo entra em salas de edição, sonoplastia, efeitos especiais, às vezes erra a porta, mas Silveira segue empolgado explicando tintim por tintim o quanto custou e para que servem os equipamentos.
Na Globo, Mauro Wanderley parece ter o pacote de números pronto. Ele solta o cartucho e fala das incríveis instalações do Projac: os dez estúdios, a fábrica de cenários, o acervo de figurinos com 86 mil peças, a florália onde se criam plantas duplicadas, para revezá-las em cena (enquanto uma toma sol, a outra está sob os holofotes).
Conta que, na hipótese de usar toda a potência instalada da emissora, gastaria o suficiente para abastecer uma cidade de 70 mil habitantes.
Nesse momento, para atenuar a explanação, ele fala sobre a preocupação constante da emissora com o ambiente. “A primeira providência do doutor Roberto [Marinho] ao construir o Projac foi contratar uma empresa para reflorestar a área. Plantaram 40 mil mudas de espécies da Mata Atlântica.”
À saída, a reportagem passa pela gravação externa de uma cena com Alinne Moraes para “Duas Caras”. Alguém chama o diretor Pedro Carvana e surge o primeiro ponto comum às duas emissoras: os herdeiros de sobrenomes famosos. Eles são Avancinis, Saracenis, Farias, Bourys, Mambertis… Todos a serviço da arte e, é claro, da frenética produção numérica.
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